Em destaque

Ler é sempre uma emoção

De tempos em tempos alguns meios de comunicação mais segmentados trazem à tona uma velha discussão:  a boa e a má literatura. Entram na arena, para mais uma acirrada batalha, os exércitos das palavras.  De um lado os Guardiões Machadianos, apoiados pelo Clã dos Drummonds.  No outro lado da...

Leia mais

Prateleiras fantásticas

Por bookess | Postado em Novidades | Em 12-09-2010

Tags:, , , , , ,

0

Sabe aquela garotinha abraçada ao unicórnio cor de rosa, com um brilho nos olhos que chega a ser doentio, querendo mostrar a todos quão fofinho ele é? Sabe o cachorro babando em frente aos frangos rodando suculentos? Sabe essa cara? Essa era a minha cara quando dei de frente para a livraria Shakespeare and Co em Paris.

Sim, era doentia, era de: Ai meu Deus, caramba! É ela mesmo! É até desleal, deixa eu explicar; você passa pela ponte e vê ao longe a ponta da igreja, isso mesmo. Lá ao longe, aquela ponta era onde o Corcunda se pendurava para tocar o sino, aí seu coração bate forte, tutu. Acompanhe o mapa mental, aí você chega pela parte de trás da Catedral e não sabe se controlar e quer matar aqueles chinas ridículos com aquelas máquinas monstruosas acabando com seu momento mágico, pedindo para tirar uma foto para eles. Você entra no jardim atrás da catedral e não sabe se está tremendo de emoção ou por conta do frio, pois faz 12° graus.

A ideia é ficar com cara de boba por meia hora olhando os gárgulas, e se sentar em um dos banquinhos imaginando que Vitor Hugo fez o mesmo. Parte dois: você pode ir para a frente da catedral e dar gritinhos de excitação sozinha, já que ficar um mês sozinha na Europa te deixou meio doida. De frente com ela, você se liga que aquela é com certeza a igreja mais linda que você já viu na vida (desculpa, Catedral de Brasília, também te amo). Mas aí você olha para o lado e vê a livraria Shakespeare and Co, e faz aquela cara do começo do texto. Espero que vocês entendam que são caras diferentes. A da catedral era de respeito, já que eu não posso comprar a catedral e levar para casa. A da Shakespeare and Co é aquela da menininha doida com o unicórnio.

Eu lembrei dele, sim, dele, James Joyce. Ulisses foi impresso naquela minúscula livraria. Proibido nos Estados Unidos, os editores foram condenados por publicar obscenidades, o que interrompeu a publicação serial do romance. O livro permaneceu proibido nos EUA até 1933. A dona da Shakespeare and Co não quis nem saber da censura e colocou o livro nas prateleiras em 1922. Fundada por Sylvia Beach na década de 20 , no prédio de um antigo monastério do século XVI. A americana Sylvia deu asilo a diversos escritores e intelectuais da época. Ezra Pound, Gertrude Stein, Scott Fitzgerald e Simone de Beauvoir foram alguns dos associados. Ernest Hemingway – que dedica algumas páginas de Paris é uma festa à livraria – foi ainda responsável por reabri-la no fim da 2ª Guerra, chegando em uma caravana de jipes e gritando o nome de Sylvia antes de retirar os últimos alemães de cima do telhado. As memórias e o acervo de Sylvia foram herdados por George Whitman. Seguindo o feito da primeira dona, ele expandiu a livraria em três andares, todos com camas para acomodar poetas e escritores. Como os beatniks William Burroughs, Allen Ginsberg, Samuel Beckett, Henry Miller. O livreiro não negava abrigo a quem compartilhasse de suas paixões literárias.

A Shakespeare and Company é atualmente dirigida por Sylvia – filha de Whitman batizada em homenagem à criadora da livraria – e, embora seja mais seletiva ao receber os hóspedes, mantém os rituais de leitura obrigatória e o chá aos domingos. Ao entrar, quase abracei o vendedor que estava no caixa e me recebeu com um olá totalmente britânico. Como assim, você é britânico? Eu sou, a livraria não é bem francesa, né! Ponto para ele e um grande daaarrrrr para mim. Vasculhei os três andares da livraria, que tem a maioria dos livros em inglês. Sentei em uma das camas instaladas entre as prateleiras, onde com certeza James teria se sentado para escrever Ulisses, e fiquei a tarde toda lendo Madame Bovary em inglês. Flaubert que me perdoe, mas li em inglês. Saí de lá com um sacolinha e meu Madame Bovary com o carimbo da Shakespare and Co. Que me perdoem os franceses, mas meu pedaço favorito da França é inglês.

E para quem não acompanhou o mapa mental, e não achar a ponta da igreja ao longe, pode ir pelo jeito normal. O endereço é: Shakespeare and Company 37, Rue de la Bûcherie, 75005, Paris.

Michelle Horovits, Brasília-DF, é jornalista e produtora de TV.

Fonte: http://www.amalgama.blog.br/09/2010/prateleiras-fantasticas/

Related Posts with Thumbnails