Na frieza, o maior engano do tradutor
Por bookess | Postado em Novidades | Em 29-06-2010
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Tradução é risco. Inegável. É terreno de inúmeras dúvidas e uma certeza incômoda: a certeza de errar. Traduzindo, erra-se sempre. Se não na forma, no conteúdo. Se não no sentido, no estilo. É uma empreitada que não tem como dar certo. É irrealizável, fadada ao fracasso mais fundo. Além de todos os vícios, como fossem poucos, é ainda uma forma de plágio. Deveria ser proibida, não fora tão útil e mesmo necessária. O que não a exime de todos os seus erros nem a redime de todos os seus tantos pecados.
D'Alembert, o enciclopedista, diria que o maior pecado do tradutor seria a frieza. Pode-se perdoar tudo àquele que se entrega a um ofício destinado ao engano, menos a frieza, o mecanicismo – uma forma de desdém. O frio mata, mas o ardor vivifica.
A obra literária é escrita com ardor e arrojo. A tradução da obra literária deve ser feita com essas mesmas qualidades. Erra-se menos pela ousadia que pelo retraimento e pelo excesso de contenção. Traduzir não é tarefa para muitos comedimentos. A obra literária é pensada, lapidada, fruto de inspiração e suor. Traduzir com frieza, burocraticamente, mata a obra. Não ousar na tradução é um insulto ao impulso criador, naturalmente ousado, que criou o original. Um insulto ao autor.
Por: Eduardo Ferreira
Fonte: http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=2&lista=1&subsecao=5&ordem=3422

