Obscuridade: Fator ou Consequência?
O novo livro “Shakespeare e a Economia” lança um questionamento inevitável, será o fim do enobrecimento da pobreza do artista como uma representação vanguardista?
Autores como Emily Brontë, Miguel de Cervantes, Franz Kafka, George Orwell dentre outros nos trazem a impressão de que somente o reconhecimento póstumo é o destino de grandes autores. Tuberculose, pobreza e vala comum foram destinos de grandes gênios da humanidade, principalmente no Brasil... Porém o “mito” do não se vender para ser um grande escritor parece soar meio falso depois das afirmações concluídas a cerca do nosso bardo inglês. Outra realidade aparece através da entrevista retratada na Veja de 9 de dezembro: um Shakespeare empreendedor, buscando atingir através da arte a riqueza, tendo alta popularidade com suas peças e servindo a interesses de grandes monarcas. Cremos que ninguém pode negar a capacidade do autor de Romeu e Julieta mesmo com esses fatos.
Partindo desse princípio perguntamos: É a genialidade ou o despreparo cultural da nação que leva os artistas a pobreza? Façamos um paralelo simples: Victor Hugo, Alexandre Dumas, Goethe, Júlio Verne e Dumas Filho, autores franceses do período vitoriano, atingiram fama e fortuna. Não por coincidência: No meio do caos político, a literatura surgiu como uma fuga e um modo de questionamento sobre a vida, sendo um estilo artístico respeitado por diversos setores. No mesmo período Aluizio de Azevedo,Castro Alves, Adolfo Caminha entre outros expoentes da literatura brasileira tiveram somente na segunda metade do século XX algum respaldo. Enquanto o maior expoente da nossa literatura, Machado de Assis, morreu na companhia dos poucos intelectuais e agradando uma minoria social, Victor Hugo, o escritor de Os Miseráveis teve 1 milhão de pessoas prestando-lhe a última homenagem, enquanto exposto no Arco do Triunfo, e o luto das prostitutas de Paris.
Concluímos afirmando: O reconhecimento ou não do público não é o que caracteriza a habilidade do escritor por si só. Existe o fator determinante a ser levado em conta: Quem é o público. Afirmar o talento de um autor pela sua obscuridade é levianismo, assim como afirmar sua supremacia de acordo com o gosto de uma sociedade alienada. Como já dito em textos anteriores, o que definirá a permanência na posteridade é a capacidade do escritor traduzir seu tempo, aliado a seu senso estético e ideais coesos. Se ocorrer isso em uma geração intelectualmente preparada para ele ou em um momento propício, haverá aclamação. Senão, sua obra escorrerá pelos veios do submundo artístico até florescer em um solo que o mereça.
Bernúncia Editora
2 dias atrás
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